Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005

O meu oráculo

Todos os dias, ou quase, restabeleço o meu universo. Deixo as sobrepostas camadas de música sacra que o meu ser vai entoando na calçada, espalhadas por ali. Deixo-as para quem as quiser, ou as conseguir ouvir. Deixo a pessoa descarnada em cada passo que vou dando. Sou ali parte da natureza já seca e triste que me diz:
- Caminhes ou não eu estarei aqui amanhã.
Faço a excisão do que me tira o alento, os obstáculos vão tombando em cada passo que dou. A melancolia é a primeira que fica perto do carro. Sou um ser móvel, o meu espírito é móvel e é nesta grande selva que é a minha habitação, que estou. Vou para a lavoura e esta é a parte do dia em que não sou o molde oco que representa milhares de milhões de outros seres que fazem o mesmo todos os dias. Pressões aqui não existem, só tenho os meus passos, o que passo fica no trajecto. Só mais dois ou três obeliscos fazem este percurso. É o meu maior privilégio e o deles, imagino que o seja também. Deixar o carro ali e ir passo a passo com o nosso pensamento, não é para todos. No verão é porque o calor deixa-nos empapados em água e no Inverno é a chuva que teima em nos lavar. Ou levamos com o calor, ou aguentamos com o frio que nos faz quer apressar e recolher ainda mais profundamente no nosso interior.
Sinto a glória imarcescível da renovação. Trituro o meu pensamento respirando um ar semi-poluído. Sou a caminhante do mesmo caminho e reconheço quem opta por fazer o mesmo trajecto. É o momento do dia onde deixo a decadência de tanto que vi, senti, sinto ou pensei. Não observo nada em volta, sou o/a espectador/a do meu universo. Vou deixando pelo caminho tudo o que durante o dia me pode levar a curvar a postura e murchar. De manhã sou agradável com o meu tempo.
Os meus órgão estão activos, estou vivo/a. Não sei porque duvido que esteja vivo/a mas muitas vezes sinto que já estou morto/a. Chamo sepulcro ao que tenho de fazer. Sim, sinto-me tal qual um zombie a maior parte do dia. Por isso se nem estiver morto o certo é que caminho para lá.
Irrequieto é o meu pensamento, não o meu ser. Esse é o motor que deixa o que penso tornar-se na parte que pode avariar uma parte do sistema.
Vou assim, sem visão, sei para onde vou, tenho gravado cada passo que dou, no entanto parece-me sempre a primeira vez que o dou. Parece uma insignificância o que faço, para os outros deve ser, além de uma parvoeira enorme, já que tenho um espaço para o meu carro mesmo ao lado do meu emprego. Para mim nem é discutível esse assunto. Nem nunca tentei explicar porque o faço. Faço aquela caminhada porque me apetece, porque gosto e ninguém tem nada a ver com isso. Sinto compaixão, isso sinto porque quem acredita que dificulto tudo, só por optar não deixar o carro a dois passos e preferir dar um milhar de passos, merece compaixão. Pensamentos anémicos!
Este suco extraído do espaço que me dou para ir, acaba por se tornar a reunião com tudo, seja o que entendo ou não entendo. É o meu oráculo.
Fulgente este tempo que dou a mim mesmo/a, engrandece-me o ser eleva-me e torna-me neste círculo em redor de mim mesma que não me deixa extinguir a individualidade de optar pelo que parece mais complicado. Corto com o que me pode levar a naufragar nas vossas corrupções morais ou imorais e deixar de ser molde para ser moldado/a por o que os outros pensam.

publicado por Pontog às 10:18
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1 comentário:
De Anónimo a 14 de Novembro de 2005 às 13:24
O que os outros pensam não passam de isso mesmo... pensamentos alheios moldados pelo próprio ser, ou que com a permissão que alguem lhe os molde... Mas para eles o que nós pensamos também é somente o que os outros pensam. E por vezes bem vemos e podemos constatar que o que pensamos lhes passam ao lado...mas muitas vezes o que eles pensam não tem efeito igual em nós... Mas sim, por vezes o que os outros pensam, sobretudo o que pensam faz com que olhemos de modo incrédulo:Mas, quem és tu? (onde está o meu amigo...?)- ou ainda- Mas isso é o que pensas, ou um desejo? ( porque muitas vezes parece que há ali qq coisa esquisita como uma vontade qq de nos ver falhar, naufragar...que supostamente não devía estar associado a um ser "amigo"). Eu prefiro estar errada por vezes, partilhar apreocupação, mas dar o espaço para a pessoa Vô o caminho, para ver por si só, se quer percorrê-lo, mas abrir os braços quando quer descansar ou pura e simplesmente vê que prefere outro... O que penso deixa de ser tão importante perante o sorriso de quem é importante, o brilho no olhar ...isso? Isso é que realmente importante...ver alguem perseguir sonhos, mesmo em dias de Lua ;-) Questão de pontes ... percebes oq ue digo? :p Beijos para tu... e um abraço daqueles que te fazem mudar de cor...mas entre o corar ( vermelho) ou da falta de ar ( o roxo) escolhe ;-) SeeUArround Fetiche
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