Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005

Silêncio.

Olho pela janela interior. Certas posturas e atitudes conseguem deixar-me em carne viva o ser.
Silêncio.
A minha aspereza é sempre ácida e frontal a alheia é quase sempre depois de uma manobra que nem vi e aconteceu. Goela de quem maldosamente sabe jogar com trunfos que nunca tive. Devoram a minha bondade, ainda a sinto, ainda a tenho, mas pergunto-me onde me leva este acreditar nos outros. Vou pelas goelas, quero ir. Estou cansada de lutar.
Hoje recuso-me a acreditar na bondade. Hoje recuso-me a acreditar em tudo. Não quero saber. Mas já nem é de hoje que nem quero saber. Deixei de querer saber. Deixei no caminho, o que vi e senti este fim-de-semana. Mas todos os dias tenho deixado um pouco de mim, até já só restar indiferença.
A maldade faz-me ficar neste estado. Pergunto-me sempre porque não reajo. Porque deixo que digam e aconteçam e nunca existe da minha parte uma tentativa de me defender. Talvez necessite que saibam que existe muito que nunca farei. Que posso ir até a muitos extremos, mas um deles é nunca aderir a esse.
Silêncio.
Olhei para o teu rosto. Olhaste-me confusa. Olhaste com ódio a conversa.
Silêncio.
Ergueste-te da mesa depois de um: Com licença que vou vomitar…Ou preferem que vomite aqui?
Silêncio aqui e ali.
Reconheci em ti o que noutra altura faria, que já fiz e já assististe. Nunca por mim. Não sei o que se passa comigo…Talvez eu seja indiferente já ao que me pedem, ao que me apontam. Não quero saber…Já não quero saber.
Silêncio.
Voltaste quando a tua acção provocou um tsunami. Voltaste e não te sentaste. As mãos crispadas diziam o que o semblante também dizia. Eu continuei a ouvir, não te disse ainda, mas já nem quero saber.
A tua vontade seria atirar a cadeira para cima da mesa, a minha era a que não assistisses.
Olhaste para mim, olhei para ti. Pediste-me um ponto final naquela desgraça. Não te dei o que pediste, não te dei pelo menos na forma que pediste. Ergui-me também da mesa. Poisei o guardanapo com calma, nem sentia a calma, naquele momento já só sentia indiferença.
- Vou levá-la e já volto para finalizarmos esta conversa.
Não recusaste ir. Querias ir. Falaste-me da paciência que tinha, da tua raiva…Da raiva que te provocava a minha calma. Sei que em certas alturas gostavas de me abanar, como por vezes te abano.
Parei o carro, levei-te ao bar. Como crescestes minha jóia.
Fomos em silêncio, não tinhas dito tudo, mas não querias dizer mais. Abraçaste-me. Somos quase da mesma altura e isso fez-me sorrir.
Na porta, apuparam-nos.
- Lésbicas? Isso é que era uma festa, posso juntar-me a vocês?
Ignoramos. Eu pelo menos ignorei. Mas tu quando viste o teu namorado aproximar-se, deste-me dois beijos e depois de acenar com a cabeça ao miúdo a que chamas namorado, afastei-me. Nem tinha dado meia dúzia de passos e disseste:
- Mãe…Amo-te.
Ouvi as perguntas…Fui com as perguntas:
- Tua mãe? Estás a gozar! Ela não tem mais de vinte de pouco… É mesmo tua mãe?
Não te disse que também te amava. Mas sorri, espero que tenhas visto naquela obscuridade que sorri.
A tua gargalhada acompanhou-me até ao carro. Já sabes o que vão comentar. Deu-te gozo que soubessem que era a tua mãe.
Deixei-te com o miúdo. Não te disse ainda, mas odiei-o. Estava a levar-me a minha menina. Já sei que cresceste e isso tudo, em altura não tarda e até me superaste. Nem imaginas como franzi toda a minha essência quando me apresentaste o miúdo. Nem idade tens para estar num bar, no entanto levo-te até um. Eles fingem que não sabes que nem o podes frequentar, ou até te dão já 16 anos que ainda terás…E nem é tão cedo.
Bom, mas fora estes momentos em que sinto que me estão a levar o meu maior tesouro, fico verdadeiramente feliz por estares a crescer. Expliquei-te o que já sabias. Sorristes por ter algum receio de seres mãe adolescente. Asseguraste que nunca aconteceria e em caso de resolveres teres relações sexuais com o miúdo, seria com todas as contra-medidas, medidas e mais o que existisse.
Só a conversa me fez encolher. És a minha menina e nisso não sou diferente das outras mães. Mostrei uma segurança que nem sentia. Espero sinceramente que esse dia venha longe.
Entrei no carro. Entrei no silêncio.
Silêncio.

publicado por Pontog às 14:30
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