Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2006

Sombra sarcástica.

Hoje vejo-me como uma sombra sarcástica que desdenhou a vida e acabou a lubrificar o hábito. Escolhi o céu como limite e acabei algures presa num ajuizado levar o cesto todos os dias para a vindima.
- Ora viva…Mais um dia.
Rugi um:
- Pois.
Passei por quem estava como tenho passado pela vida. Como boa avestruz que sou, hoje o meu dia foi com a cabeça no buraco do esquecimento.
Sinto-me velha, uma múmia. Se me abanarem devo tornar-me em pó. Se tirar as ligaduras desmancho-me.
- Que pessimismo é esse que plantou na sua expressão?
Devo ter uma expressão fechada. Sinto tudo ao meu redor fechar-se e abrir sem eu conseguir sair deste impasse. Não quero dar um passo para a frente, muito menos para trás. Abram a janela, vou sufocar.
- Não é pessimismo. Isso lá se planta na face?
- Então não?
Não. Posso plantar no meu universo e ser a minha raiz e ao rosto assomar uma tristeza ou descrença. Mas na expressão não posso plantar nada. A expressão reflecte como me sinto. Sou expressiva, demasiado por vezes.
Encolho os ombros. Hoje estou mais numa de desbravar o que plantei do que plantar fosse o que fosse.
Segui. Sigo sempre para o meu piso. Seguiu atrás de mim.
Liguei o pc, vi-a on. A minha amiga totó, cumprimenta-me, cumprimento-a.
Indica-me um endereço onde posso ir espreitar.
- Quer sentir-se ainda mais velha? - Pergunta-me a Totó.
Um endereço onde consta séries infantis. Recuo no tempo. Estou no sofá a mexer no cabelo e a sorrir. Ainda não sou uma avestruz.
- Que rodopio é esta vida! - A vida devia correr-lhe de feição pelo sorriso patético que se desenhou.
Olhei-a. Vi-a fazer um reconhecimento do que nos rodeava. Nunca alterava rotinas, o meu rodopio era esse.
- Nunca nada neste escritório se altera.
Fechada neste cubículo sobrelotado de pensamentos sinto inveja. O cantinho solarengo artificial dela nada tem a ver com a minha caverna sem claridade e sempre pronta a analisar criticamente...Tudo.
Sou um croqui que nunca chegará a ser molde e se sou molde não sei para que sirvo. Se é que sirvo para alguma coisa. Incorporei remessas diferentes de rotinas e hábitos e as últimas tendências asseguram que nada tenho a ver com esta moda ou outra moda qualquer. Elaborada e sem capacidade de resposta ao que me pedem, não consigo sustentar a minha posse. Sou vítima do meu próprio conformismo. Quem me dera tecer elogios rasgados ao que sinto e vejo. Mas escuto-a. Não tenho novidades para contar, ao contrário da figura. Mas escuto-a.
Sei escolher o vinho e as refeições certas, mas fora isso nada sei escolher. Conheço a etiqueta por dentro e por fora.
Não conheço é este teste de fogo que me vejo obrigada a superar. Ninguém me obriga a não ser eu mesma. Não sei é se tenho estofo para aguentar a pressão.
Nunca interiorizei que os outros deviam apreciar ou não o que sou. Tudo passou por um treino, treinei-me a ser alguém que é capaz de ouvir e chorar por mais. Mais e mais opiniões. Treinei-me a não lhe dar qualquer valor…Ou a valerem pelo que valiam.
- Ah, vi algo numa montra…Faço anos recorda-se? – Na minha humilde opinião, é a prenda certa.
Gostos de estar na caverna, no local mais profundo de mim mesma, aqueles cantinhos depois de um tempo cansam-me com a sua futilidade. Acabo a detectar a futilidade e a minha máquina dá curto-circuito.

- Que pancada a sua com isso de chegar e ligar o computador.
- No dia em que necessitar explicar as minhas pancadas, interno-me. – Bati com a caneta na secretária, sinal evidente de impaciência. – Mas já o disse hoje, sou estrambólica. De tal forma que me precisam lembrar-me que fazem anos e devo comprar uma prenda.
- Que rude és.
Sou. Mil vezes sou rude, mas acabaram-se as prendas. Gostou que vá comprar. Ou bem que são meus conhecidos, amigos ou bem que me esfregam na cara que fazem anos e querem uma prenda.
Pergunta-me:
- Hoje vou jantar com o fulano e sicrano. Já reservei mesa para nós.
- Nós? Que nós é esse? – Com que direito é que me incluíam em jantares e ultimamente parecia existir sempre alguém por perto para me apresentar amigos e conhecidos. - O que tenho eu a ver com esses jantares? Nem pensar que vou.
- Precisa sair. Não vai ficar sozinha para sempre. Não é isolando-se no virtual…Até porque sei que só fala com mulheres. - Faz uma pausa. – Acho que receia os homens.- Até parece que a vida acabou aos trinta anos.
Na verdade agora é que começou. E já nem trinta anos tenho. Só não quero nada com ninguém. Não quero nenhuma aventura sórdida, não quero ter um namorado escaldante. Não quero voltar a ter um marido. Quero continuar mas assim sozinha a sentir que tenho uma vida para viver. Acordar não foi simples, sou uma pessoa de hábitos. Mas estou por fim desperta, não é impossível que aconteça, mas por agora não aconteceu e nem me faz qualquer confusão estar sozinha. Gosto. Faz-me confusão é os empurrões e puxões de amigas e conhecidas.
O sensor está a funcionar. A radiação vai queimar-lhe alguma coisa. O ambiente climatizado dispara e antes que lhe atire com o que tenho na secretária, a janela do Messenger volta a dar sinal. O telefone toca e a sanguessuga sai ilesa antes que lhe possa dizer o que merecia. Fica para a próxima.


publicado por Pontog às 14:20
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