Quarta-feira, 25 de Maio de 2005

A árvore Erótica

A árvore despida de vestimenta, estende os seus braços esquálidos em todas as direcções, mas são os dois maiores ramos solitários que se erguem bem alto quase a tocar no céu da indiferença de quem a vê de braços estendidos que me prende a atenção.
Uma música, a música de um cacto espinhoso, acompanhado por o som da lira da amizade, murmura-lhe:
- Porque estendes os braços, como quem pede colo, árvore Erótica?
- Porque estendes os braços como quem pede companhia, árvore Erótica?
- Porque o fazes, se recusas a entrar em contacto com o teu espírito.
- Porque o fazes, se ainda nem descobriste que não é a tua essência que se sente só. Mas sim os teus hábitos. Mas sim os teus receios.
O som nem chega a ser odorífero, mas consegue sacudir ligeiramente a Árvore Erótica.
Recua, nega, sente e desmente.
No seu recolhimento o espírito é o que mais se resguarda de olhares indiscretos. Os leigos, esses ficam pelo aspecto que o vegetal lenhoso consegue passar do seu interior. Chocalheiros que olham para o vegetal com aspecto de rebuçado e ficam a lamberem as beiças. E ela vegetal, arbusto, folha, ramo, mostra-lhes tão pouco. Quer que descubram mais, que a vejam como é. Que a sintam. Mas eles os chocalheiros, não sabem o que é sentir mais dos outros. E mesmo que soubessem talvez nem o fizessem.
O vento das revezes faz com que a árvore se dobre sobre si mesma. Ou assim parece ser. Mas ainda nem o vento passou e já ela altaneira volta a erguer-se, a endireitar-se.
A que preço, não sei. Ainda não descobri. Nem sei se alguma vez o descobrirei. Vejo a dor, a tristeza. Vejo muito que gostaria que a floresta também conseguisse ver. Ou pelo menos que alguém a visse como a consigo ver.
O que me daria uma alegria suprema seria ver que a árvore entrava em contacto com o seu interior e descobria a paz que necessita. Descobria que enfrentar-se era só o primeiro passo de muitos que ainda teria de dar. Mas ela já deu tantos passos….Tantos. Já puxou as raízes vezes e vezes sem conta. Já chorou copiosamente sangue, sem ter por perto ninguém que lhe curasse as feridas. Que agora entre o arvoredo, perdida. Porque é assim que a maior parte das vezes se sente. Perdida. Mesmo que ninguém saiba que se sente perdida nas suas dores.
É uma árvore vestida no exterior, mas despida no interior. Uma árvore erótica em pleno Inverno. Uma estação que nem ela quer entender. Contrasta com o Verão que já se anuncia na manhã. Que ela sente no exterior, mas que ainda não conseguiu sentir na sua essência. No seu interior é agora estação do cair da folha. Que ela ainda não sentiu que se tornará o húmus.
No jardim da vida encontra-se algumas, não muitas destas árvores presas à terra por fortes raízes. São lutadoras, sobreviventes das intempéries. Quem passa por ela vê a copa, ou os ramos eróticos. Repara nas suas formas, mas não no seu formato.
Hoje resolvi colocar várias cadeiras viradas na direcção da árvore erótica. Nunca ocorrerá a ninguém porque o estou a fazer. Nem creio que seja importante entenderem isso. Importante é que se sentem e assistam ao despertar desta essência.
Talvez no meio de tanto arvoredo, ela a árvore Erótica, seja só vista como mais uma, árvore, uma folha. Alguém que nos contempla numa prece que parece ficar longe de compreensão.
Quando o sol lhe toca ao de leve e o vento penetra por entre os seus ramos, ao fundo os montes de conversas ficam recortados por uma essência excentricamente simples que parece entoar várias melodias. Nenhuma delas aparentemente audível para quem finge que a escuta. Porque só pode ser fingimento se não a conseguem escutar! Ou será unicamente indiferença?
Esta árvore Erótica necessita que a consigam ouvir. Nunca vos pedirá que entendam as suas dores. Nem a tristeza que hoje cresce como erva daninha ao seu redor. Sei que não o fará. Receio que nem tente encontrar-se com ela mesma, por ser demasiado doloroso. O que não receio é desnudar-lhe o interior aqui e agora.
No meio de tanta natureza é quase hilariante ver como preferem a paisagem de jardim com tons de pornografia, a que foi fabricada por um jardineiro ou jardineira. A olharem para a árvore Erótica que está ainda no seu estado natural.
- Quem olha para si, olha e vê o aparente. – Não lhe vi o olhar quando lhe disse isso. Mas nem precisava ver. Sabia que estava a assentir. Nem o precisava ter dito. Todos sabíamos que era assim. A maior parte sente-se satisfeita por ver uma parte. E isso basta. – Mas não tenha tantas certezas, nem tente antecipar o amanhã, Erótica. O amanhã terá tempo de acontecer. Aproveite o hoje, o agora. Aproveite o momento.
-Existe tanta vegetação e falta de tempo e vontade. – Não suspirou. Não deu nenhum tom mais grave ao que tinha dito, mas continuou. – Acredita, Ria, não voltarei a amar, nem quero que me amem. Acredita que tenho esta certeza. A única que hoje tenho.
Talvez para os restantes seja só mais uma árvore Erótica. Para mim e para a fetiche é a árvore.


publicado por Pontog às 11:36
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