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Sábado, 21 de Janeiro de 2006

Homem - Do - Carrinho - De - Rolamentos

Entrei onde já tinha estado. Dizem que não devemos voltar ao sítio onde fomos felizes. Descansada estou, porque aqui, nunca foi o caso. Se pensei voltar? Nunca pensei nisso, aliás aqui, sempre evitei pensar.
Os corredores idênticos, o cheiro é um odor que entranha. O chão com aquela falta de cor, as paredes com pigmentação como qualquer quadro surreal, marcado pelo tempo…e pela humidade.
Os hospitais são assim. Acabamos por entrar numa cápsula temporal. Teletransportados de forma imediata pela frase que surge no pensamento sem pedir licença: “a última vez que cá estive…” Inevitável.
Não foi agradável.
Prefiro maternidades. A desgraça e o terrível está em minoria, não é que não exista. Bom, visto a minha capa ao entrar no edifício. Não é difícil. Só questão de prática.
Entro e parece que entramos numa mostra pública do efeito e estudo da lixívia nos tecidos…branco, e mais branco.
Aqui já entramos no impressionismo… impressões para lá, pensamentos para cá.
Salas e recantos. Engraçado que ali naquela ala sempre foi assim. Arranjam-se recantos, perto de janelas, mais parecem os encastrados. Recuados ficamos longe das vistas alheias. Qual vergonha escondida. Ou privacidade de últimos sussurros.
Espera.
Alguém reclama, barafusta…pragueja e vocifera. Claro, irresistível. Lança barbaridades às quais tem como resposta abanos de cabeça. Censura pura aos olhares de prontos a um julgamento peremptório e sumário. A mim soa-me a algo…er…Apelativo. Faz-me lembrar alguém. Não resisto e aproximo-me. Sento-me enquanto espero. Tudo se trata de espera. Até da morte, ou sobretudo da morte. De um fim.
Exercitando o seu léxico vernáculo mais rico que um dicionário dedicado ao mesmo o Homem-do-carrinho-de-rolamentos continua na sua desdita e na demanda de chocar as pessoas e obter reacções. Ao aceno de cabeça reprovador ele responde:
-Ó minha senhora não se preocupe que na sua próxima vinda cá, se tiver sorte já morri. Aliás que bela vivenda comprei na terra-dos-pés-juntos! - Choca a senhora, faz-me rir a mim. Continua: - nem imagina, televisão plasma …- e ri – tentando fazer desenho com o trocadilho plasma: tá a ver? Plasma, eu aqui…leucemia…aliás vou chamar à minha casa lá, célula! (ahahah)
(não resisto e começo a rir…mais declaradamente, porque é-me impossível parar, a tentativa dele explicar e do próprio trocadilho).
Ele repara e acerca-se com o Carrinho-de-rolamentos (vulgo, cadeira de rodas);
-que vida…ou desvida! A minha puta é o que leva o melhor de mim, ou seja aquela que me deixa impotente, sem capacidade de apalpar e sentir as bochechas das enfermeiras, Ah! Maldita quimio… a minha droga, são câmaras d’ar para a cadeira…foda-se! Já nem isso
(dou uma gargalhada com gosto) ele vira-se para mim, olha-me nos olhos e pergunta: -e a sua?
Respondo quase de imediato:
-As minhas putas são as cápsulas, a droga é abrir os frascos! (Ele não se detêm e explode numa gargalhada, aliás rimos os dois).
-Finalmente… - diz ele em tom de desabafo e suspiro.
Levamos os dois com abanos de cabeça e censura entre-ollhos… Olhares de soslaio brindam-nos.
Chega um companheiro de internamento o Homem-do-Cabide-que-faz-Bip-Bip e cumprimenta com um olá sumido e depois diz ao virar-se para o Rezingão:
-ouves-te lá ao fundo. As enfermeiras quando morreres fazem festa!
- É,é…podiam dar a festa antes, nem sei se com viagra ia lá…
Eu acrescento: - repare no risco que elas corriam se isso do comprimido azul lhe caísse para os pés, anda se levantava e as fornicava tudo a pontapé…
(um ataque de gargalhadas a três…ou seja, uma ménage)
continuo: -Aliás tou a ver que o seu amigo ai é cotonete… (olham curiosos e confusos com a expressão).
-ou seja, dá para os dois lados…pelo que vejo…adora um balão de soro! Que as enfermeiras apalpam, claro.
(rimos mais um pouco… já sem nos preocupação e termos ofensivos aos demais…conto a anedota do “então, despenteia-me?!”)
Mais adiante na conversa…
Confessa que não sabe se lhe dessem um último desejo se seria dar uma trancada final, ou fumar um cigarro… olhar o sol, ou o mar com a pessoa que amava….mas isto foi depois…
Digo-lhe, bom com uma ajuda, acabaria por conseguir fazer isso tudo…
Provavelmente não saberia que fazer, assim é melhor não ter…é a sua conclusão.
Acrescento em modus lembrete: …”-mas segurar a mão de alguém que se gosta, fica de somenos importância o onde, pois somos transportados para o doce lugar do: não estamos sós e alguém lembra da nossa existência. Será imortal ….- sorrio. Acrescento: -claro que com a trancada tinha de ter cuidado… para não ficar entalado, claro…
Risos…
Passou a enfermeira chefe com uma cara de lobo mau e ele diz assim:
- Não me olhe com cara de má, ou de lobo mau, pelo menos enquanto não fizer a barba, além do mais não tenho queda para capuchinho e neste caso, nas minhas condições de mortal… seria abuso de cadáver, quase… ó mulher peluda!
-És um abusador! É o que eu digo! - diz a mulher peluda indignada, com a sua capa de pêlo.
Não resisto e digo: - cá pra mim, ainda vai buscar os eléctrodos e só para comprovar que ainda mexe, é abusado depois de o ligar à ficha!
…e salvas de gargalhadas umas mais débeis que outras soltam-se por aqueles corredores por onde a esperança escoa numa velocidade superior àquela que a detêm de se escoar…
-Até lhe dava o jeitinho…com a máquina de barbear! (mais risos)
O amigo tem de ausentar-se, pois chegou a vez dele ir fazer o tratamento.
Ele olha-me sério depois da ausência do cotonete - o Homem- do – Cabide - que - faz- bip - bip - e a recuperar da última gargalhada, inquire curiosamente: -porque se aproximou? Não se afastou dos gritos porquê?
Encolhi os ombros primeiramente. Depois acrescentei com a verdade do meu pensamento: – Lembra-me alguém. Uma amiga. A panca é que difere, é analista, prefere pedir que façam análises à urina… - e sorrio.
Ele sorriu. Um sorriso compreensivo e acrescentou: - hmm pelo sorriso, essa amiga…até distribuía as arrastadeiras… - e soltou um riso sincero…eu idem, ri bastante só com a imagem e acrescentei: -claro! Seriam as arrastadeiras, voadoras…!
Chegou no entretanto a minha hora.
-Bom, tou no ir…- ele anuiu e acrescentou: - posso acompanhar até à porta?
A cadeira chiava e eu disse: - ainda se queixam, então com essa chiadeira, parece um carrinho de supermercado, vá, toca a pedir bala redex, para a próxima me dar boleia nesse carrinho de rolamentos, homem!
-Ai carrinho de rolamentos, que saudades! – disse ele- Mas está combinado, nem que arranje um azeite adulterado da cozinha!
-Sabe, acrescentou ele… é raro encontrar aqui alguém que não olhe com pena, ou que não nos ofereça olhos remelosos de chorar com o que nos vai acontecer, esperança…só esperança, eu sei o que me espera, foi apenas mais cedo do que desejaria, mas todos temos isso assegurado o fim…resta saber o que fazer até ele chegar. Eu ainda tenho direito ao meu happy ending…
-Claro, sobretudo sem olhos remelosos a olhar a tela…acrescentei eu…e rimos até a porta…
Acrescentou ao estender-me a mão:
-gostei do humor negro e sobretudo não ter medo de o fazer ou dizer, estando ou não doente…obrigado à amiga que nos aproximou, a próxima vez que fizer uma análise…
-… ou utilizar a arrastadeira, já agora… lembre. Ela vai gostar. Não sei é se será fácil executar a operação fisiológica…- acrescentei.
E rimos, muito…

SeeUArround e afins... ;-)

publicado por Pontog às 16:50
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