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Terça-feira, 27 de Setembro de 2005

Amélia dos olhos doces


Numa das minhas visitas à revisão, encontrei-a.
Apesar de já fazer uns tempos, lembro. Tenho boa memória, é um facto. E ela, por si só fez/faz impossível por ser olvidada. Não o é. Não o será.
Estava tão pequenina, a alva senhora. Cabelo branco, puro algodão. Gentil velhota.
Encolhida.
Olhei. Tremia.
Estava sozinha e olhava tudo de modo a tentar encontrar alguma familiaridade a que pudesse recorrer ou agarrar; de modo a sentir-se menos estranha.
Sorri para mim mesma, ao olhá-la, ao vê-la…reconheci a sensação. Era a sua primeira vez ali.
Os olhos dela encontraram os meus, na sua busca de âncora… Li-lhe o olhar. Olhos doces, olhar límpido.
Sorri uma vez mais ao ler o que lhe ia pelo olhar. Ela percebeu. Retribui com movimento. Sentei-me perto. Em silêncio. Ela tentou sacudir o medo que a tolhia, de estar num sítio completamente estranho, novo e desenraizada…
Ao chamarem-na de novo a fim de lhe devolverem uma papelada que não mais acabava com indicações várias, reconheci o sotaque…do Sul.
Sorri novamente perante esta percepção.
Suspirou. Profundamente. Tentava aplacar o receio.
Estava sozinha. Ou melhor, sentia-se desacompanhada…balbuciou algo…para ela própria se ouvir: (suspiro) – Que faço eu aqui…? (suspiro e abanou a cabeça) …
O que a doce senhora balbuciou passa a todos os que lá vão, poucos lhe dão expressão verbal.
Gentil senhora dos Olhos Doces. Inocência. Receio.
Precipitei-me num movimento. Coloquei a minha mão gelada em cima das dela, quentes. Apesar das minhas mãos gelo (sim, estou sempre gelada), ela não se encolheu (como costumam fazer), não fugiu ao toque, não tremeu…Permaneceu com a minha mão pousada.
-Quando a chamarem e se quiser, vou consigo…podemos sempre dizer que sou a sua neta, que tal?... – E ri. - Vai tudo correr bem… – acrescentei e pisquei o olho.
- Que olhar maroto – retribuiu ela e abriu um sorriso…soltando uma leve gargalhada animada… Olhos doces…muito doces.
Perguntei-lhe (já sabendo a resposta), de onde era…e falámos sobretudo dela… e do sítio dela. Transportámos memórias para ali fazendo dali um sitio menos estranho… O tempo passou…a expressão de medo, dissipou-se…Os olhos ficaram ainda mais doces e límpidos…e o sorriso mais sorriso.
Perto da vez dela, alguém chegou e ela ficou ainda menos só… sossegou mais um pouco e ao chamamento ela foi, agora com a legitima…uma surpresa, inesperada, mas grata.
Doce Amélia, foi, mas olhou para trás…olhou-me com aquela doçura no olhar, sorriu e esboçou um – Obrigado.
Não mais encontrei Amélia dos olhos doces… até hoje, não soube dela… Encontrei a neta de olhar Saudoso…viu-me e sorriu, percebi… ela também: - A neta alfacinha… – eu.
Amélia dos Olhos doces, hoje fui eu que senti as tuas mãos cálidas por cima das minhas, geladas… a aplacarem o receio.
Até, Doce e Gentil Senhora….

SeeUArround e afins... ;)

publicado por Pontog às 22:52
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